Por Dra. Ismenia Evelise Oliveira de Castro*
O assédio nem sempre começa com um grito. Às vezes, começa com uma brincadeira. Ou com o silêncio de quem presencia.
Estamos habituados a reconhecer o assédio pelas suas manifestações mais evidentes. A humilhação pública, a ameaça, o abuso de autoridade.
Entretanto, há uma dimensão menos perceptível, que merece nossa atenção: os pequenos comportamentos cotidianos que, quando naturalizados, podem abrir caminho para formas mais graves de violência nas relações de trabalho.
Mais do que discutir as diferentes manifestações do assédio, precisamos refletir sobre a própria condição humana nas relações profissionais.
Compartilho três pontos que considero fundamentais nessa discussão.
- A incivilidade: quando o desrespeito se torna cotidiano.
- O assédio, as relações de poder e a complexidade humana.
- A ética não pode ser apenas uma norma. Precisa ser uma escolha.
A incivilidade: quando o desrespeito se torna cotidiano.
Nem toda atitude desrespeitosa configura assédio moral. O assédio, contudo, pode encontrar na incivilidade reiterada o ambiente propício para se desenvolver.
A ironia recorrente, o deboche, a desqualificação de um colega, a indiferença deliberada, as brincadeiras que constrangem.
Comportamentos muitas vezes tratados como irrelevantes, ou justificados por expressões como “ele é assim mesmo” ou “foi só uma brincadeira”.
Os estudos de Christine Porath demonstram que os efeitos da incivilidade ultrapassam a pessoa diretamente atingida. Comprometem o desempenho, o engajamento e até a capacidade criativa daqueles que apenas presenciam situações de desrespeito.
A violência nas relações humanas nem sempre se apresenta de maneira ostensiva. Por vezes, ela se instala silenciosamente, na repetição de comportamentos que aprendemos a tolerar.
O assédio, as relações de poder e a complexidade humana.
Quando pensamos em assédio moral, frequentemente imaginamos o gestor que humilha seus subordinados. Entretanto, o poder não se manifesta apenas pela posição hierárquica.
Condutas abusivas também podem partir de liderados, por meio da desqualificação reiterada da liderança, de exposições deliberadas e de enfrentamentos que ultrapassam os limites legítimos da discordância profissional.
Questionar, discordar e criticar são manifestações legítimas. Humilhar não é.
Também precisamos revisitar aquilo que durante tanto tempo chamamos de brincadeira.
A literatura e o cinema nos oferecem inúmeros exemplos de comportamentos que hoje reconhecemos como bullying, mas que durante décadas foram naturalizados.
O que para alguém representa humor pode produzir marcas profundas na história de outra pessoa.
E aqui reside uma dimensão que considero essencial. Cada indivíduo chega ao ambiente de trabalho carregando sua própria história. Suas dores, experiências, relações familiares, valores, inseguranças e percepções sobre o mundo.
A pessoa que ocupa uma posição na estrutura organizacional não deixa de ser humana ao assumir seu cargo. E isso vale para todos: gestores, liderados, vítimas e ofensores.
Compreender essa complexidade não significa justificar comportamentos abusivos. Significa reconhecer que a convivência humana exige consciência dos próprios limites e respeito à existência do outro.
A ética não pode ser apenas uma norma. Precisa ser uma escolha.
Uma empresa é, em alguma medida, uma microssociedade. Nela convivem diferentes histórias, interesses, expectativas, conflitos e relações de poder. E, como em qualquer sociedade, a qualidade da convivência depende não apenas das regras estabelecidas, mas das escolhas de seus integrantes.
A vítima precisa ser acolhida, ouvida e protegida. Aquele que pratica uma conduta abusiva precisa ser responsabilizado, com justiça e proporcionalidade. Quem presencia precisa compreender que sua atitude também importa: não incentivar, não reproduzir, acolher e utilizar os canais institucionais adequados.
Há, contudo, uma reflexão que antecede todas essas providências: Quem escolhemos ser nessa microssociedade chamada empresa? Quais comportamentos reproduzimos sem perceber? Quais atitudes legitimamos pelo silêncio? Quanto estamos dispostos a rever nossas próprias escolhas?
A prevenção ao assédio exige regras claras, mecanismos de investigação, responsabilização e estruturas efetivas de compliance. Nenhuma dessas ferramentas, isoladamente, transforma uma cultura. A transformação exige autoconsciência, autorresponsabilidade e o exercício cotidiano de reconhecer o outro como alguém igualmente digno de respeito.
A ética não se realiza apenas no conhecimento daquilo que é certo. Ela se concretiza na escolha de agir corretamente, sobretudo nas pequenas situações da vida.
Por isso, combater o assédio não pode se resumir a uma tarde de treinamento, a uma campanha institucional ou a um código de ética publicado no site.
Precisa ser uma prática diária.
É a ética em ação.

*Dra. Ismenia Evelise Oliveira de Castro é sócia-fundadora da De Castro Sociedade de Advogados, advogada (OAB/SP 223.753) com mais de 20 anos de atuação, mestre em Filosofia do Direito (Diálogo com Compliance) pela PUC-SP e soma especializações em compliance, gestão de riscos e negociação (Harvard/FIPE), unindo estratégia e resultado à frente dos negócios.
